Crônica: Você Gosta de Amora ?

Saulo Soares Monteiro de Carvalho

Vou contar ao seu pai que você namora? Não, não contarei. Eu prometo. Enfim, somos cúmplices confidentes!

Com o passar dos anos e o preço da maça argentina, a amora, definitivamente, é o fruto proibido, pecaminoso. Ainda que de um pecado mais parecido com o perdão.

Aqui em casa tem uma amoreira no quintal. Amoreira de frutas pequenas e doces, tais como as lembranças da minha infância. Nos meus tempos de menino era frondosa e gratuita como uma mãe! Dava balanço, destemor das alturas e passarinhos.

Estamos no princípio da primavera, um domingo, e eu acho que vai chover. O som da chuva escorre pelas alhas da Matriz. é de embalar qualquer um! Minha amoreira está envelhecida, coberta de erva de passarinho mas, mesma assim, o chão ao seu redor está ruborizado. O chão do chão, o chão da casa, o chão do meu peito.

Os moleques não roubam mais amoras, não pedem, não sobem, nem descem. Aquele segredinho risonho que liga a amora ao amor, ao namoro, não enchem os olhos dos garotos de hoje, não macha suas roupas nem suja os seus dentes com o doce batom.

Seria amora o feminino do amor? Não sei. Agora chove e o som da chuva mai me parece uma caixinha de música, daquelas com bailarinas de rotação e translação. Minha amoreira, minha bailarina de purpurina vermelha, de sapatilhas encravadas na terra, de movimentos suaves á brisa e condizentes com meus olhos!

Tu gosta de mim e dos meus frutos, amoreira da minha vida? Então, façamos um trato: não contes ao meu pai que eu namoro, que eu não conto ao teu que fazes poesia!


Saulo Soares Monteiro de Carvalho é bancário, nasceu em 24 de abril de 1968 em Piraí (RJ), cidade onde vive.