O Muro

Arary Oliveira Lima

Obra de mestre em alvenaria, o muro é parente dela, mas não é parede, é bem diferente. Não faz parte da casa. Fica de fora, de longe, como um parente distante da parede que não tem coragem de chegar perto e ser mal recebido.

Também, pudera, ele sabe que a parede significa mais para a família. A parede é proteção da intempérie, é aconchego, é abrigo, é calor, é felicidade, é lar.

Mas o muro representa divisão. Divide a gente do mundo, separa do melhor vizinho, não alimenta amizade.

É verdade que protege, mas a distância, sem intimidade.

Eu, por mim, prefiro ver o verde ao redor da casa.

Ainda agora fizeram um muro na minha rua. Bem aqui em frente.

Eu passava as tardes vendo a algazarra da criançada do outro lado, brincando no escorregador. Elas faziam cada uma! Tem moleque que é danado mesmo. Cada descida numa nova posição. Às vezes, alguns se davam mal e se ralavam. Eu ria das traquinagens.

E o balanço então. Era grito das meninas que não acabava mais.

Eu gostava mesmo quando era tempo de alguma fruta. Goiaba, Jabuticaba, Caqui. A meninada trepava nas árvores e comia quilos de frutas.

Lembrava do meu tempo…Mas isso é outra história.

Eu estava distraído olhando as flores do jardim do outro lado. Eu chegava a atravessar a rua para ver as rosas mais de perto. Quantas cores! Dava até para sentir o perfume!

É, eu estava distraído e chegou o caminhão.

Despejou tijolos, areias e britas…

Logo depois chegou o operário com a ferramenta na mão. Foi fazendo a vala para o alicerce e, num piscar de olhos, começou a levantar aquele muro. Parece o muro de Berlim, que graças a Deus caiu!

Na tarde do outro dia eu já não via o jardim.

Depois sumiu o playground.

As árvores floridas foram desaparecendo como se fossem varridas por um furacão.

Toda aquela beleza sumiu da minha frente.

Agora, do outro lado desta rua em que eu moro, só vejo na minha frente esse pedaço de muro.

Por mal dos pecados, além de tudo, depois que pintaram o muro, vieram uns marmanjos de noite e picharam tudo com um mau gosto terrível.

Há vida do outro lado. Eu sei, eu ouço, eu sinto e não vejo!

Um dia desses eu levo uma escada e encosto de encontro ao muro.

Vou subindo bem devagar.

Então, vou ficar espionando a felicidade alheia.

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Crônica: Isabela

Elionice Lopes Borella

Paulo chega cansado como sempre. Sobe para o quarto. O calor está insuportável!
Irritado com a gravata, o suor, a gritaria das crianças na piscina e com mais alguma coisa que não sabe bem o que é, escancara a janela e quando está prestes a esbravejar… Suspende o grito, a respiração e chega e a sentir frio…

Como pode Isabela estar ali, na sua piscina, no meio dos meninos! Como teria acontecido isso? As crianças na maior intimidade como se conhecesse há muito tempo, e Isabela ali, ali entre eles, inexplicavelmente ali, na sua piscina, com seus filhos!

Com o olhar confuso Paulo acompanha Isabela deslizando na água. Linda como sempre, mais ali no meio dos meninos, parece um tanto patética. É a primeira vez que a vê assim, ao ar livre, cabelos molhados, boiando, os enormes olhos azuis espetados no azul do céu …

Paulo está ofegante e Isabela, que ridícula, parece não respirar! Dá a impressão que ela tem de permanecer imóvel para não afundar. Os meninos parecem tentar ensiná-la a nadar. Ela bóia, mas não sabe nadar. Ela bóia porque bóia, é da sua natureza. Mas nadas não sabe.
Que vergonha!

Deve ser isto, Isabela quer vingança, quer matá-lo de vergonha, único recurso que tem: o poder de humilhá-lo! E um dia tão quente… Paulo fecha os olhos para ter certeza do que vê? Isabela nua, os seios fatos chamado pelos meninos que pulam sobre ela, espalhando água e despudor por todos os lados! Isabela afunda, mas logo está de volta com seu ventre arredondado. Cada vez que afunda e volta a tona é como se surgisse pela primeira vez aos olhos de Paulo. As gargalhadas e o barulho da água parecem entorpecê-lo lentamente.
Sabe que precisa tirar Isabela dali, mas não consegue da um só passo. O corpo de Isabela passando de mão em mão parece tão leve, tão feito de nada, que não há mesmo como culpá-la. Ou é o corpo de Paulo que começa a estranhar-se, a entranhar-se, entranhar-se…

Recuperado do desmaio Paulo põe-se de pé, decidido a tirar Isabela dali. Olha pela janela. Todo aquele corpo confirma, cada pedacinho… foi feito para o sexo e ainda assim guarda algum mistério. Um mistério que vem de sua leveza feminina. Dá a impressão que, tirando-lhe a pele, não há como possuí-la. Saõ assim as mulheres. Pura impossibilidade…

Paulo está assim, em seus devaneios, quando um grito o faz estremecer. Não! Não há mais como evitar o desastre! Da janela ele assiste tudo. Marta, sua esposa, expulsando as crianças da piscina e arrastando Isabela pelos cabelos. Não há mais como evitar a vergonha e a culpa! Estático no corredor, Paulo observa Marta subindo as escadas, arrastando Isabela. Sem olhar para o marido, Marta atira Isabela sobre a cama. O corpo obsceno parece levar uma eternidade para tombar sobre e os lençóis… mas Marta leva um só segundo para saltar sobre Isabela e lhe arrancar a alma.

Paulo ficou ali parado, esperando Isabela se esvair. Por fim apalpa-lhe o peito, um último e demorado sopro… Pronto está tudo terminado.

Paulo começa a dobrar Isabela pelo pés. Sempre foi meticuloso com isso, como se cumprisse um ritual de purificação. Passo a passo, dobradura por dobradura, um origami sinistro que desfaz a forma e cria o nada. O caixaõzinho de Isabela foi lacrado com a mesma etiqueta vermelha com que veio da loja: Love Sex Shopping. Paulo foi sempre muito cuidadoso…


Eleonice Lopes Borella nasceu em São Felix (PE), em 14 de novembro de 1954, e vive em São Paulo (SP). é bancária e psicanalista.

Crônica: Globalização

Djandira A. Bazim

Globalização, internet cartão de crédito, países emergentes, isso tudo são termos que certamente não constavam de nosso vocabulário poucos anos atrás. Fico espantada como a tecnologia, a ciência e principalmente a comunicação avançaram nas últimas décadas. Hoje, já não existe mais distância. Será que a terra se tornou uma aldeia?

Outro dia, estando eu no Banco, atendi um telefonema pedindo um saldo. Querendo ser mais atenciosa, puxei um extrato e disse ao cliente que, se por acaso passasse pelo banco no dia seguinte, pegasse comigo o referido papel. Qual não foi a minha surpresa quando ele me disse:

– Não posso! é que estou falando do Japão.

Mais facilidade têm, para entender essas coisas, as cabeças das crianças. Talvez os muitos filmes, a internet façam com que elas assimilem melhor que nós tudo isso.

Outro dia, durante a noite, levantei-me e fui ao quarto de minha filhinha pequena para cobri-la. Sonolenta, ela levantou seu rostinho e me perguntou:

-Mãe, na China já está amanhecendo?
-Não sei, respondi. Mais porque você pergunta?
-É porque eu estou ouvindo um galo cantar bem longe…

Enquanto para as crianças é mais fácil, para outros não. Veja, por exemplo, o caso dos velhinhos aposentados. Agora, só recebem com cartão. Muitos não entendem e sofrem com isso. Alias, hoje em dia é cartão para tudo , não é mesmo? Fiz uma recente viagem e pude perceber como o mundo está dependendo do tal cartão. é cartão´pra pagar e pra receber. O dinheiro virou cartão. É cartão pra abrir portas, pra acender a luz, e até para ligar a eletricidade que vai esquentar o meu chuveiro. E fico a pensar como será o nosso futuro, se tudo continuar assim. Provavelmente o cartão dominará tudo.

Já imagino as pessoas usando cartão para comprar um carro, depois usando um cartão para das partidas. Para abastecer as mesmas coisas. E em casa como será?
Provavelmente será assim:

-Meu bem, vamos dormir?
-Vamos, mas não se esqueça de pegar a carteira
-Porque?
– Porque se não funcionar, você passa o cartão.


Djandira A. Biazim é bancária, nasceu em 27 de abril de 1950 em Itápolis (SP), cidade onde vive.

Crônica: Caçadores de Cirros

Domingos Fábio dos Santos

Quando mais criança – e faz um largo tempo – divertíamo-nos empinando pipas. Desenrolávamos as linhas e soltávamo-nos ao gosto do vento, no rabo das arraias. Éramos, então, seres com as cabeças nas nuvens – motivo de muitas topadas e tropeções. Evolucionávamos em manobras várias, pra fazendo curvas, ora embicando em direção ao solo, para então, já próximo da colisão, sair do mergulho com um golpe de mão. Outras vezes caçávamos anjos entre os cirros. As horas passavam céleres e o chamado para jantar pagava-nos pelo estômago. Recolhíamos as linhas e despedíamo-nos, combinando nova partida para o dia seguinte, com nossas pipas atacando o sol. Com linhas de cerol.


Domingos Fábio dos Santos nasceu em 28 de outubro de 1963 em Ubatuba (SP). É ex-bancário, geógrafo e professor.

Poesia: Solidão

Ela chegou num dia nevoento
Talvez trazida pelo próprio vento
só, trêmula de frio…
Abri-lhe a porta, dei-lhe meu abrigo,
como se faz a um verdadeiro amigo
e, em meu sofá dormiu.

No dia seguinte logo de manhã,
pedi, na condição de anfitriã:
seu nome e de onde vinha…
– Eu sou a solidão, foi a resposta,
não tenho onde morar, ninguém me gosta
e ando sempre sozinha.

Com a escusa de não ter onde morar,
aos poucos tomou conta do meu lar,
e nele foi ficando…
Companheira cruel das minhas noites,
parece um vendaval com seus açoites,
sempre me torturando.

Ela chegou num dia nevoento,
Talvez trazida pelo próprio vento,
ou por um furacão…
Á sua “sozinhez” ninguém resiste,
só quem a hospeda sabe como é triste
a tal de solidão!!!


Antonio Valentim Rufatto nasceu e 14 de março de 1931 em Itapuí (SP). É bancário aposentado.

Crônica: Você Gosta de Amora ?

Saulo Soares Monteiro de Carvalho

Vou contar ao seu pai que você namora? Não, não contarei. Eu prometo. Enfim, somos cúmplices confidentes!

Com o passar dos anos e o preço da maça argentina, a amora, definitivamente, é o fruto proibido, pecaminoso. Ainda que de um pecado mais parecido com o perdão.

Aqui em casa tem uma amoreira no quintal. Amoreira de frutas pequenas e doces, tais como as lembranças da minha infância. Nos meus tempos de menino era frondosa e gratuita como uma mãe! Dava balanço, destemor das alturas e passarinhos.

Estamos no princípio da primavera, um domingo, e eu acho que vai chover. O som da chuva escorre pelas alhas da Matriz. é de embalar qualquer um! Minha amoreira está envelhecida, coberta de erva de passarinho mas, mesma assim, o chão ao seu redor está ruborizado. O chão do chão, o chão da casa, o chão do meu peito.

Os moleques não roubam mais amoras, não pedem, não sobem, nem descem. Aquele segredinho risonho que liga a amora ao amor, ao namoro, não enchem os olhos dos garotos de hoje, não macha suas roupas nem suja os seus dentes com o doce batom.

Seria amora o feminino do amor? Não sei. Agora chove e o som da chuva mai me parece uma caixinha de música, daquelas com bailarinas de rotação e translação. Minha amoreira, minha bailarina de purpurina vermelha, de sapatilhas encravadas na terra, de movimentos suaves á brisa e condizentes com meus olhos!

Tu gosta de mim e dos meus frutos, amoreira da minha vida? Então, façamos um trato: não contes ao meu pai que eu namoro, que eu não conto ao teu que fazes poesia!


Saulo Soares Monteiro de Carvalho é bancário, nasceu em 24 de abril de 1968 em Piraí (RJ), cidade onde vive.

Crônica: Gol Infiel

de José Antônio Diniz de Oliveira

O dia, a princípio, era dela. Do aniversário. Tinha que ser o dele também. Domingo de muito sol. De futebol, sorveteiro e torcida. A bola era branca, o time era azul (a tarde era azul!), o campo era o da Santa Lídia.

A bola veio alta dos pés do Paulinho, parabólico passe. Caiu na direita (que não era a principal), triscou na trave e saiu.

Começo de jogo, primeiro lance bonito. Fez força para não olhar a arquibancada e arrancar-lhe alguma reação. Guardou o gesto para o instante maior.

Humberto rouba a bola no meio de campo e tabela. Quatro trocas de passes e a meia lua já ficava para trás. Na saída do goleiro, a ginga e o toque, sutil, em direção ao canto esquerdo do gol. Gol que o beque salvou em cima da linha. Escanteio.

Tadeu ajeita a bola e nem toma distância. Ele se coloca entre as áreas pequena e grande, no lado oposto, mão na cintura, olhar no chão, dissimulando o beque. É no segundo pau que ela vai cair. Mas não cai, porque se encontra com ele no alto. Corpo ereto, olhos abertos, testada certeira. Lance perfeito, mas inconcluso, porque momento de brilho do goleiro, abraçador de bola e de outros sonhos.

O sol enchia o campo da sombra dos eucaliptos. Não era tanto dele assim o dia. Seria. O artilheiro ajeita a língua da chuteira e ergue o meião molhado que o elástico já não segura. E se lembra dos cinco gols do último domingo, contra o Martinica, e aquele criouléu da defesa que ralava até a mãe. Mas se lembra muito mais da promessa. Um beijo por gol ela daria. (A aposta tinha sido a única forma encontrada para vencer o mais terrível dos beques: a timidez.)

A bola rolava ainda e se encontrava várias vezes com ele. E se transformava em perigo nos seus pés, a cada vez. Mas teimava naquela tarde em lhe determinar precoce a felicidade aos dezesseis anos.

Enxugou o suor na manga da camisa e partiu em contra-ataque atrás do lançamento, vencendo os beques. Na corrida alguns, no drible os outros. Avançou, foi derrubado, levantou e seguiu obstinado para a hora do disparo: nem muito cedo e muito menos tarde. No ponto certo: um chute seco e rasteiro, indefensável, que passando o goleiro partiu para encontrar a rede pelo lado de fora.

Não era falta de fôlego a garganta seca. Esperava pelo menos que ela compreendesse o esforço e a fatalidade da tarde. Nem o destino explicaria. Nada explicaria. Ninguém explica o gosto de um gol perdido, como de um beijo ninguém compreende a perdição.

O sol pintou de sombra o campo todo. A tarde ia embora mais veloz que normalmente. A bola subiu pela última vez para cair no apito final.

Enquanto isso, no outro lado do mundo – o feminino -, Catarina se distraía com o papel do último sorvete, interessada que estava, mas no discreto lateral direito, camisa dois, que quase não pegou a bola.


José Antônio Diniz de Oliveira ficou em 2º lugar no Concurso Clarice Lispector de Crônica de 1996 com o texto Gol Infiel. José Antônio nasceu em dia 21 de março de 1956 em Piracicaba, interior de São Paulo, e é bancário. Viveu em São Paulo e atualmente reside no Rio de Janeiro.

Sem Título-1