Diego Guarnieri

No Cantinho do Associado de hoje, vamos contar a história do associado Diego Guarnieri, que atualmente vive no Canadá com sua esposa Nani. Diego trabalha há um ano e meio em um estúdio de efeitos visuais, chamado Pixomondo, em Toronto no Canadá, com a pós-produção de séries e filmes como Mulher Maravilha, Triple X, Velozes e Furiosos 8 e Powers Rangers.

Ele e a esposa se mudaram para o país em 2014, para estudar inglês por seis meses, porém já existia a ideia de fazer outra faculdade. Terminado o período do curso, ele resolveu se inscrever em uma faculdade de animação 3D e efeitos visuais. Sempre tive esse sonho de trabalhar com cinema mas nunca tive a oportunidade, principalmente no Brasil que esse mercado de pós-produção não é tão amplo. Já aqui no Canadá esse mercado é gigantesco”, contou.

Para se graduar, ele precisaria estagiar por dois meses. Assim, ele mostrou o seu portfólio para os professores e em pouco tempo começou a estagiar em seu atual trabalho. Após ter cumprido o período de estágio, foi efetivado.

Diego é associado do Satélite há muito tempo. “Sou associado desde que eu me conheço por gente, meu pai é funcionário do Banco do Brasil faz muito tempo”. Quando questionado sobre a unidade que ele mais gosta, ele respondeu “Eu costumava passar o verão inteiro na de Itanhaém, os meus melhores amigos que eu tenho até hoje eu conheci na unidade de Itanhém, então acho que é lá que as minhas melhores memórias estão”. E foi lá que ele descobriu sua vocação. Quando era adolescente, junto com os amigos do Satélite, costumava gravar um programa de televisão chamado Fala Fanfarrão para se divertir. Hoje em dia, trabalha em uma das maiores empresas de efeitos visuais do mundo.

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Poesia Ser Feliz

Hoje no blog divulgaremos a poesia do associado Gil Alexandre Borges Neto, que posteriormente foi transformada em uma belíssima música pelo também associado e Vice-Presidente José Soares, após encontro no Show de Talentos, na Semana dos Aposentados, ocorrida em Itanhaém.

Confira:

Ser feliz
(Gil Alexandre Borges Neto e música de José Soares)
Ser feliz é padecer
Mas na dor se inspirar
É sonhar para viver
Ou viver para sonhar.

Ser feliz é ver florido
O mais árido deserto
E ficar horas perdido
A sonhar olhos abertos

Ser feliz é ver a Lua
Lá no alto prateada
E andar só pela rua
Vendo ao lado sua amada.

Ser feliz é ver sozinho
A mais fria madrugada
E ouvir dos passarinhos
Calorosa alvorada.

Ser feliz é ver o dia
Muito triste, abandonado
E sentir muita alegria
Recordando o passado.
Ser feliz é ver a tarde
Quando o Sol já vai se por
E chorar, sem ser covarde
Ou sorrir sentindo dor.

Ser feliz é ter lembranças
De alegrias, desenganos
E viver, ter esperanças
Horas, dias, meses, anos…

Foi vivendo os meus dias
Que a vida me moldou.
Ver em tudo poesia
E a ser o que hoje sou.

Obrigado meu Senhor
Pelos momentos que tive
Pois só mesmo com AMOR
É que a gente sente e vive.

Estou pleno de ventura
Aprendi já perdoar
Vivo em paz sem amargura
Sem rancor, só sei AMAR.

Homem sem Rosto

Maria Márcia Garrote

Os duzentos metros quadrados de área, o enorme pé direito, o concreto e a nudez daquele saguão transportavam os mais atentos aos misteriosos salões de grandes cavernas. Apenas o relógio na parede e o movimento de pessoas fantasiadas de escritório mostravam que aquele ambiente frio não havia sido criado pela natureza.

O fluxo intermitente de pessoas aumentava e diminuía e o toc-toc dos passos era sempre engolido por largos corredores que ligavam as diversas alas.

Embaixo do relógio, uma única mesa com uma farda, o homem fazia parte do cenário. E esse homem, o da farda, observava tudo e todos, discretamente, afinal para isso havia sido treinado. Mas o que esse homem mais observava e pelo que ele ansiava todos os dias era a chegada da moça bonita, de longos cabelos sempre alados por cintilantes presilhas.

Dia após dia, anos a fio, dez na verdade, ele sempre sabia o tempo certo que a conhecia. Dez anos que a esperava, vê-la passar, contar seus passos, era seu diário objetivo maior.

Na verdade, para os que passam e repassam não existe o homem, o que existe é uma farda atrás de uma mesa, abaixo do relógio do saguão. Poucos, quase ninguém percebe o recheio da farda, muito menos ela, a moça das presilhas cintilantes.

Ela passava com seus papéis na mão, com seu pensamento já no ato seguinte, desdenhando o momento presente, aquele em que passava pela mesa com a farda atrás. Ela sabia que existia um homem da mesma forma que existia uma mesa, mas nunca lhe dirigiu um olhar, afinal, objetos comuns não são reparados.

Mas ele sim a conhecia, conhecia todas as suas expressões, sabia quantos passos usaria para atravessar seu saguão antes de desaparecer no corredor. Ele estava ali para guardar, proteger, observar, dar a vida, se preciso fosse, para salvar cada um daqueles funcionários que passavam dezenas de vezes por dia sem o ver. Para todos era um homem sem rosto, mas no rosto invisível os sentidos exerciam suas funções, discretamente, sem despertar a atenção. Afinal, a sutileza de seus sentidos era própria dos figurantes. Ele era como um pequeno parafuso que é importante para o equilíbrio da engrenagem, mas não é notado.

E assim seus sentidos discretos, que não provocavam um só movimento de seu corpo, acompanhavam cada trajeto de sua musa. Seus olhos a seguiam desde a entrada do saguão até que desaparecesse pelo corredor. Seus ouvidos eram acionados pelo farfalhar dos papéis nas mãos de sua princesa, bem antes de seu delicado vulto ser desenhado na entrada. E o toc-toc de seus altos saltos era música inconfundível para aquele rosto sem traços. A fragrância ficava e, durante alguns minutos depois de sua passagem, a farda ficava realmente vazia, pois o homem se elevava para um estágio muito distante daquele saguão, tragando cada partícula de seu perfume até esgotá-lo, como para impedir que alguém mais usufruísse daquele aroma. E aí lá do alto ele imaginava que ela gostava de vê-lo e sentir sua presença.

Depois, voltava para sua farda e começava a perceber novamente cada um dos transeuntes, alguns dos quais ele invejava pois vez por outra os via passando com sua musa, rindo e tagarelando, tocando-a levemente como se tocam as pessoas quando se conta um caso. Com isso, o homem sem rosto percebia sua realidade. Ele era o dono da moça de presilhas cintilantes, conhecia seu cheiro, seus ruídos, seu andar, até seu respirar, mas não podia tocá-la. E embora conhecesse sua voz melhor que ninguém, não podia participar daquelas conversas de passagem. Ouvia palavras soltas que, antes de formar um sentido, desapareciam no nada levando consigo aquela sublime imagem e seu séquito de privilegiados.

Para ele era apenas permitido sonhar. Sonhar em tocá-la, olhá-la por longo tempo, sonhar que ela lhe notara.

Mas o implacável ponteiro do relógio havia chegado a sua posição mais vertical, a posição odiada, seis da tarde. Dentro de alguns segundos, a paz do saguão seria acabada como se um turbilhão de robôs tivesse sido ligado.

Certamente a hora muito esperada por todos, o final de um dia de trabalho, os encontros, a família, o descanso. O nosso herói, ao contrário, tentava espichar o dia, nem olhava o relógio para se iludir que ainda havia muito dia pela frente e muitas visões de sua amada.

Mas agora o ponteiro em riste era soberano, seu turno estava acabado. Restava apenas ir até a rua e seguir sua paixão, discreto e atento como era treinado. Mesmo na rua não conseguia uma identidade, era mais um, o que o diferenciava era o brilho no olhar a seguir sua musa adorada. E assim ia até que ela estivesse na segurança do seu carro.

Parado na esquina, ele a viu se aproximar com seu jeito manso, o suave andar. Passou tão próximo dele que chegou a sentir seu calor.

E se foi…

Mas o que é isso? Um sujeito parece que a está seguindo. Pode estar armado, pode assaltá-la!

E sua paixão o impulsionou. Deu alguns passos de gigante, alcançou-a e a protegeu com seus fortes braços enlaçando-a.

Enquanto o vulto suspeito passava sem sequer perceber a situação, a doce musa gritava, gritava pela polícia, por socorro.

Ele a fitou incrédulo. Seu coração não podia aceitar. Sou eu, não está vendo?

Enquanto o espanto e a indignação se apoderavam dele, a polícia chegou e o levou.

Ela, assustada, seguiu seu caminho, certamente louca para chegar em casa e contar que havia sido atacada por um desconhecido.

Nélson e Thais

Mário Romano Maggioni

No início era o amor. O sublime amor. Ele, vinte. Ela, dezessete. Ele querendo ser Arnold Schwarzenegger. Ela, enamorada. Quase uma lenda.

Tão capazes de coisas excepcionais. Tatuaram no lado esquerdo do peito um coração e nele estava escrito: “I love you, Nélson!” e “I love you, Thaís!”. Na calada da noite cantavam O Farol dos Alagados, Eduardo e Mônica. Ele lhe explicava a poesia dos Titãs. Ela, expert na arte de cozinhar, rimava cocadas com quindinhos. Entre um negrinho e outro, Nélson lhe cantava, em inglês, o alucinado som dos Ramones. E, depois, faziam amor. O sublime amor.

Ela, aos dezessete, morena, olhos pretos de pantera, cabelos longos e negros, coxas torneadas qual esculturas gregas esculpidas pela mão de Péricles sob o olhar invejoso de Eros. Thaís era açúcar e mel.

Pensa naqueles Versos Íntimos que o Nélson lhe declamara outrora. Ele, amante do Augusto dos Anjos: “…Acostuma-te à lama que te espera!…Se alguém causa ainda pena à tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!”. Ele, “filho do carbono e do amoníaco”, tão pródigo em poemas. Capaz de levá-la ao cemitério de Farroupilha para lhe declamar poesias mórbidas e egocêntricas; rimas em rimas, terminologia científica, angústia cósmica, qual um Baudelaire. E depois beijá-la em arrepios, numa região entre a concha auditiva e o “órgão” que une a cabeça ao tronco. “Para, meu amor! Ouvi um barulho na cozinha. É o pai.” Pareciam dois anjinhos. “Para, benzinho!”.

Aos vinte e sete, vejo-a atrás dos fogões da vida, tentando segurá-lo pelo estômago. Haviam passado os anos, mas ela era borbulhar erótico e sensual. “Cada vez mais linda e gostosa”, pensava o Gilberto, borracheiro, vizinho, assistindo ao Rubinho Barichello e vibrando com os campeonatos por vir. Uma troca de pneus em cinco segundos era uma loucura. “Quatro pneus – pensava ele -, corno velho!”

Aos quarenta e três, vejo-o gordo. A banha forma-lhe quatro pneus na barriga. Foi-se o sonho. Destino ingrato. Culpa dela. O sexo, aos poucos, perdeu o sabor pelos presuntos e saladas. As orgias deram lugar ao spaghetti, pizzas e macarroni. Os papos-de-anjo, negas-malucas e olhos-de-sogra deram lugar a comidas mais substanciais e suculentas. O sexo perdeu terreno para as tortas de queijo. Prazer, agora, era uma cascata de camarão com pepino e gorgonzola, bavaroise ao licor e, finalmente, um gelado crocante com molho de chocolate, acompanhado por laranja do reino e parfait de gengibre com manga. “O tesão jaz dentro do estômago”, pensa Thaís, olhando-o de soslaio, num canto da sala, lendo O Polenteiro e arrotando os seus 132 quilos. Lembra-se dos porcos de engorda que seu pai cevava numa pocilga nos subúrbios de Desvio Rizzo. Ânsias de vômito sobem-lhe ao peito ao ver-lhe as duas tetas caídas sobre os quatro pneus de banha da barriga.

Vejo-os, agora. Ele, quarenta e seis. Ela, quarenta e três. Um ao lado do outro. Ele, gordo, assassino e suicida. Ela, adúltera, linda e assassinada. O Gilberto fugiu há três dias. Os esquifes, um ao lado do outro, parecem lenda. Ninguém veio ao velório. A solidão despenca sobre as trevas querendo engolir o tempo. Há um silêncio sem poemas. Só ouço minha respiração solitária.

Uma vela despeja seus tênues raios de luz sobre uma coroa de rosas vermelhas. O epitáfio, em letras prateadas, diz: “Aqui jaz um grande amor”.

A Morte do Senhor Antônio Gervásio

José Mauro Progiante

A compulsória o apanhara num momento grave. Que digo? Graves eram todos os momentos dele, pelo menos os públicos. Se bem que é difícil imaginá-lo banal, mesmo na intimidade.

Como dizia, ela chegou, aos 70, como estava na lei, inexorável, expulsória. E como ele maldizia o dia em que não passou a emenda que aumentaria para 75. “Um lustro apenas”, refletia em voz alta. “Não quero que me apoquente a iminência da aposentadoria, mas é que…”

Espantara-me vê-lo reticente, ele que nunca deixava inacabada uma frase e nem a enésima repetição de um caso já conhecido de todos os interlocutores.

Arquivando a emenda, tiraram-lhe cinco anos de vida. Ou quase.

Ele morreu aos 70 anos e cinco dias, após uma agonia que começou já nos corredores da repartição ao receber o último holerite da ativa.

Fico a pensar, enquanto cimentam a sepultura, se sobre a face do planeta ainda há alguém para chamar minha filha de senhorita e beijar-lhe a mão.

Pode ser que Antônio Gervásio Ceres de Alcântara, dez quinquênios, três licenças-prêmio adquiridas e não gozadas, tenha sido o último espécime de homo sapiens gentilis.

Quando o pessoal da informática expedir instruções sobre como acessar, deletar ou becapear, quem se insurgirá e dirá que delir, por exemplo, é mais elegante?

De agora em diante, nos meus diálogos e plurígolos, glutão será apenas glutão, não pantófago; hipócrita será só hipócrita, não tartufo; ouvirei falar de sonhadores, mas não de nefelibatas.

Que lástima!

Engenho Sertanejo

Mauro Bigarella

Na tarde ensolarada do baixão o ranger das moendas do engenho do Amaro vira cantiga de ninar que embala o dia, para ele se pôr com mais sossego. Zoadeira de carro de boi, de roda de caititu, de engenho de cana, é sinal de fartura, de povo que se junta.

Tempo de moer cana não tem defeito: é mel, é puxa, rapadura, tijolo. É cachaça…Muitos vizinhos estão envolvidos. As mulheres limpam o que é preciso limpar e os homens pegam a examinar tudo. Afinal, tem para todos, até com sobras.

O engenho está colocado perto do riacho, junto ao pé de mirindiba. A casa do engenho é uma palhoça grande, redonda. No meio as três moendas de jatobá antigo, puxadas por um par de bois amarrados na manjarra. Somos umas quinze pessoas. Tem quem admire o feitio do engenho e quem admire a energia do boi que consegue puxá-lo. Qualquer coisa é motivo de exclamação! As forças da natureza ou a inteligência do homem capaz de inventar máquinas, tudo cai no comentário.

O engenho é de pau, tem peças mais moles para não gastar as moendas de jatobá lavradas num torno rudimentar. Não tem um prego ou um parafuso sequer. Engenho do sertão é uma obra de arte. O rangido dos dentes, o estralar da cana sendo triturada, o espumante caldo alvinho escorregando na madeira vermelha, enchendo cuias e tachos, compõe a alegria do pobre que sabe aproveitar o possível da vida. É um ritual secular, cujo início se perde na história. Parece repetir as regras do vagaroso desenrolar das existências sertanejas. Não se força a madeira, não se força o tempo. Tudo no compasso certo, cumprindo a sorte dos ancestrais.

Engenho já foi lugar de cativeiro e dor, mas esse tempo só ficou para os mais antigos, que nas rodas noturnas relembram os causos dos negros escravos. A vida é dura hoje também. Muita vez é moída como a cana, mas a rapadura e a pinga ajudam a compensar o suor. Uma ou outra, na justa hora, animam os dias, adoçam o café, dão sustança à farinha e força ao homem no trabalho da roça.

Foi muita atenção do seu Amaro ter botado a cana n’água bem cedo. Noite cheia, tomamos a garapa fria na cozinha. O engenho favorece a comunhão dos sertanejos e provoca conversas, gritos, risos à luz da lamparina. Comunidade.

*Imagem pertencente ao acervo da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto

O Patrão

Vera Lúcia de Angelis

Sentiu uma “fissura” no meio das pernas.

Não podia fraquejar de desejo pelo patrão.

Bem casado, honesto e cristão.

Rezava de manhã e de noite na capela da fazenda.

Espiava tanta reza com emoção.

-Dedé, vá buscar flor.

Buscava e enfeitava as duas santas da capela:

Aparecida e das Dores.

-Dedé, vá buscar água.

Buscava e esperava os goles lentos do patrão desanimado.

Disfarçava com a mão na garganta para ele não ver a palpitação do seu amor.

-Dedé, vá descansar.

Gritos no quarto. A porta bateu.

Dona Berenice partiu sem adeus.

Meses, meses, meses.

Patrão nunca mais rezou. Saía pela roça o dia inteiro.

-Dedé, feche a capela.

Plantou maracujá sobre ela. Todo dia cuidava e rezava pelo patrão, olhando as flores da janela.

-Dedé, vá buscar pinga.

Buscava e preparava com mel. Esperava os goles sofridos do patrão desesperado, já sem conter sua excitação.

Ajeitou-o na cama limpa que cheirava a alecrim.

No vaso, as flores de maracujá.

Tirou-lhes as botas com paixão.

Na porteira alguém gritou:

-Patroinha voltou.

Vinha com um bebê no colo.

-Dedé, vá buscar música.