Velório

Roseli Ramos Pires

O corpo pálido, sem sorriso, inexpressivo retratava, de fato, apenas a morte…

Via observarem os parentes e amigos, com tristeza e lágrimas, a injustiça divina, ou mera consequência da natureza, da morte aos cheios de vida, no resplendor da beleza. Todos tinham uma história real para contar sobre a passagem pela vida daquele corpo…Todos, menos os curiosos e ele…

Não podia narrar nada de verdadeiro sobre suas relações e afetividade com aquele corpo, quando vivo…Aliás não podia sequer expressar qualquer sentimento extra e verdadeiro quanto ao corpo morto…Só poderia chorar em segredo…Sem lágrimas…Nada além de uma tristeza masculina…dura e forte…como convinha à boa memória da falecida, a ser preservada.

A morte fora surpreendente…Repentina…Sem aviso…O acidente…A notícia…E lá se fora ver em público, o corpo…Estavam juntos, em público, como não lhes era permitido em vida…Sem reprovação…

Que ironia…

Não poderia ficar muito no velório, para não despertar curiosidades dos familiares e amigos…Já olhara o rosto frágil de perto…Com dor, mas apenas o tempo recomendado para tais eventos…Aliás, sabia muito bem da importância do tempo em todo o tempo que pudera ficar junto dela em vida…

Todo o tempo era, e tinha de ser, muito bem cronometrado e aproveitado…Minuciosamente planejado cada segundo de cada encontro furtivo e cheio de amor…

Era-lhe estranho vê-la com tanta gente em volta…Num átimo, lembrou-se que era a primeira vez que a via deitada e vestida solenemente…Veio-lhe a vontade de sorrir, à ironia sarcástica…

Olhou um pouco mais o rosto branco, sem a maquiagem habitual…Nenhum sinal da felicidade dos amantes. A morte não traz nenhum sinal de vida, realmente…Nem saudade…Nem lembrança…

Teve vontade de dirigir-se aos presentes e narrar a alegria e o prazer que tivera com aquela mulher agora reduzida a um corpo frio…Até na ante-véspera do infausto…O bom senso o fez calar, em falso respeito à memória da amante…

Os amantes nunca podem ser felizes à plenitude, refletiu…Nunca podem revelar ao mundo como é bom ser amado e amar…Sonhar e se imaginar no sonho do outro…Os amantes estão sempre no desvio da trilha do viver…Não podem se aproximar, nem afastar-se em demasia…Têm horários rígidos e curtos…parecem free-lancers na arte de amar…Sempre eficientes e disponíveis…São os que mais amam, realmente, e os que menos são valorizados pelo seu amor…

É a regra do jogo…

Assim não fosse, seriam meros namorados, ou casais, cheios de cobranças e atrapalhações a impedir o verdadeiro amor…

Seu tempo se esgotara…Era hora de partir…Sem volta…Sem esperança de um telefonema…Sem se preocupar mais com os horários do próximo encontro, definitivamente adiado… Não precisava saber mais dos compromissos do marido…Era o último a partir, sem olhar para trás ou para os lados, a investigar alguma eventual espionagem…

Depois, com calma, ele descobriu o túmulo, para trazer flores e chorar livremente…

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Um Vulto Pálido no Abismo das Eternas Ânsias

Cecy Fernandes de Assis

Hoje, no sebo onde trabalho – ainda persistem e como deuses e diabos dão uma banana para o tempo -, dentro de um antigo volume de Helena, edição de 1876 – menina dos olhos do proprietário, que nunca folheou, graças aos hotentotes da Austrália, é vidrado na portentosa área de serviço das belas mulheres dessa tribo -, encontrei um recorte de jornal senilizado pelo tempo e coberto pelo robusto aroma de mofo, não sei se do tempo perdido ou de eras passadas. Este aroma, que só medra em antigas oraturas e não se destorna nunca, aboleta-se em mim – feito a Madaleine de Proust, mergulhada no chá – e como uma uma preciosa essência, inofensiva em seus desastres, conduz-me a indagações sempre dantes imaginadas.

“Vende-se um mimoso vestido de noiva, branquíssimo, talhe mignon. Seda china e tule, corte princesa feito com graça e modéstia. O corpinho é todo orvalhado com renda valenciana, pregada com ponto paris. Minúsculos botões de pérola fecham o decote. Saia rodada em três camadas, anágua vaporosa de rendas e tule. Acompanha o véu, salpicado por gentis flores-de-laranjeira. Cartas para o endereço do jornal, em nome de Srta Theodora Euphrasia M. Calixto, sob o número 102. Em tempo, vestido sem uso.”

Cara Srta Theodora Euphrasia. Li seu anúncio com apreciável retardo de 50 anos, pois aqui a vida está mais complicada que aquilo do mosquito, perdão, e o tempo para leituras fica muito desextenso. Teu mimoso vestido, caso tenhas vendido, a esta altura já foi possuído pelo mundo de silêncio das coisas terrenas ou as traças fizeram uma reforma agrária nele. E a senhorita, em que tecida escala ancora os tíbios outonos, já repousa no mapa das reminiscências desordenadas pelo vento? Porém se puderes ouvir-me, vertical ou em sonhos, queria dizer que o teu texto apoderou-me ao longo, mobiliou meu pensamento e como os lilases de Gogh engolfou-me intacto. Fiquei acontecido. Indaguei-me: por que vendeu? Não teria o com que para conservá-lo e nem o com quem para usá-lo? Seria por necessidade, que não conhece lei e menos ainda ditamos do bem-querer? Desculpe-me o enxerimento, mesmo sabente que as identidades são só de corpo e de dizeres e nunca de almas, fiquei acuriosado.

O que me chamou a atenção no anúncio foi a doçura extremada de tua linguagem, ao descrever o vestido. Alagastes o texto com expressões e rumores delicados. Entrevi ali o bom labor e perfeito amor com que foi executado, ambos. Não tivestes parcimônia na descrição e, suponho, nem permitistes que um grosseiro redator maculasse o anúncio com uma fórmula surrada de “vende-se por motivo de”. Sozinha deves ter pego da pena e, com breves suspiros degredados, traçastes um exegese minuciosa do dito cujo.

Destes detalhes encompridados sobre o vestido, que quase pude ver ali sua biografia e nela não vestias o mimoso traje com desenhos de orvalho, lágrimas de pérolas e, no véu, íris de cristal. Plástica, fluida e desprendida falastes de ternuradas flores, delicado talhe, minúsculos botões. Eu, bípede calejado, senti aroma de pétalas e doçura de níveas borboletas e num mágico ritmo fui ouvindo o teu coração perto do meu, batendo o mesmo compasso, por pouco não me falta uma sístole e me sobra uma diástole. Teu desespero tão bem alvaiado fez-se o meu. Fiquei doente de mim mesmo e desejei que tua espera não tivesse sido volumosa e o desejado desovasse novinho, sem limo por debaixo. Cá comigo disse: êta vidinha besta, onde até a tristeza se entristece toda. Este que isto escreve crê nisso compulsoriamente.

O que mais fala alto, no anúncio, é a ausência de quem um dia foi eleito pelo teu afeto e estamos carecas de saber que a ausência é também uma morte, a solo, e a especial diferença é a esperança. Houve?

Nas negras linhas, com delicadeza, ofereces o vestido e nas entrelinhas, como as crianças que dizem com a boca: muito obrigada e com os olhos gritam: quero tudo, retrai-se. Não é culpa tua esse vazamento parabólico, mas das palavras, que, não tendo domicílio próprio e sendo despudoradas, abrem nas pernas a qualquer significado que alguém queira dar. Contudo, tem muita virtude teu modo cativante de escrever e acho que em todos os anúncios devia de sempre se usar. Na excelência de sua prosa, não prometes desconto tentador, preço de ocasião ou o reles baratinho quase dado, apenas ofereces um detido destino. Serena, isenta e fiel, acenas com o possível, que é a justa medida das coisas.

Senhorita Theodora Euphrasia, não sei quem, num dia passado, que hoje se fez presente, guardou seu anúncio e eu, nas minhas desventradas horas, tive-o nas mãos e por ele fiquei seduzido. Se lesses os anúncios na imprensa de hoje! Anjos tenham! Criarias chatos nos pelos da alma, desculpe-me.

Os de agora, numa linguagem analfa-telegráfica, sem rigor, sem atitude crítica ou cuidado com a miserável e poliuretanada Flor do Lácio, oferecem de tudo, pasme, desde ações até zurro de burro gravado.

Sob a rubrica Serviços Profissionais, tarecos, burundangas e mequetrefes mais inusitados desfilam. Pasme: a Andréia, Aretha e Aynara – a ordem é rigorosamente alfabetizada, passando pelo k, y e w, que oficialmente nem fazem parte do honorável vernáculo, sendo consideradas letras exóticas, tanto quanto a fauna estufada da ABL – oferecem-se – é, a mercadoria delas são elas mesmas. Ato de bom alvitre, pois assim já garantem o QTC e o Iso 9000. Imagine aquelas laboriosas senhoras, que mercadejavam o corpo pela única razão de que se lhes dera na telha ser puta? Não! São empresárias, umas micros e outras nem tanto. No anúncio, dizem possuir os seios maiores que mamões e nem especificam se são ovais, papaias ou de bagas arredondadas e rosicleres, sumarentos, adocicados ou empedrados de açúcar. O inexato desleixo é imperdoável. Como um democrata portador da cidadania pode conviver com isso?

Já Fuco, Manecho e Taxarolo dizem que têm mais de 1.80 alt., e querem mostrar tudo o que aprenderam durante sua longa existência: 18 anos de idade. Nem mais uma informação adicional. Minha vó leu e achou que eram instaladores de varais ou limpadores de chaminé. Necessitada, quis contratá-los. Para evitar vexame gritante, eu disse: vovó, de fato, mexem com varas e vassouras, mas…

Tem também as massagistas orientais com tudo esticadinho, zen-shiatsu usando os dedos do mindinho até o dedão e as finlandesas com massagens para o ego e por aí vai, porém de um modo ou de outro, leitores incautos, lendo os reclames, ficamos sem saber o que é esticadinho, como e onde enfiam a dedarada e se não atenta contra os dez mandamentos, ou o sorbônico Plano Real, massagear o tal do ego. Bom, pode ser que ego não seja mais aquela patranha froídica, sabe-se lá.

Vê, Srta. Theodora Euphrasia, não há mais precisão de termos e nem graça no dizer, por isso pelo seu anúncio, que gritava pela exatidão, usando a linguagem inviolável da meiguice, fui apoderado e, solidário, te compreendi como a alma deve traduzir o corpo.

Cativeiro

Helena Maria Tonet

Preto véio num ligava
Quando o branco escravizava
Prá cuidá da plantação!
Achava inté que era bão,
Puis num via maió riqueza
Que trabaiá e pô na mesa
Do sinhô o mió feijão.
Preto véio entendia
Que do branco dependia
O futuro da nação!
Percisava paciença,
Percisava tê ciença
E uma boa alimentação.
A nação tava nascendo,
E como o grão que vai crescendo
Carecia de atenção!
Sinhô branco num podia
Perdê um minuto por dia
Suando e cavando o chão!
Tinha que usá a inteligença
E quando um homem pensa
Num deve sujá a mão…
Havia, claro, injustiça.
Mas todo o homem que atiça
Faz fogaréu da brasa!
Traia suja se lava em casa,
Por isto, lá na senzala,
Os mais véio dizia: “Cala”,
Prá sossegá os revortado…
Era mió deixá de lado,
Morde num sê castigado:
Sinhô branco, se exartado,
Perdia toda a razão!
Num tinha dó mesmo não,
E chicotiava nosso lombo!
…Mas quem tem carma,
Se trais no ombro
O futuro da nação!
Quem fala muito
em revorta
É porque num se importa
Em buscá o fundo da questão:
Cumu a gente trabaiava!
Nóis inté que gostava
Da dureza do chão!
Nóis cantava, nóis plantava,
Nóis aguava a plantação!
E ali, a céu aberto,
E a natureza tão perto,
Nóis não era escravo, não!

 

Delírio da Criação

Vera Lúcia de Angelis

Visitei uma tela sua. Pisei o azul cobalto, sujei meus pés nos trigais e me envolvi no dourado do céu. Seu chapéu de palha caiu sobre minha cabeça e um vento repentino me trouxe seu hálito cansado. Cheirei os pessegueiros em flor e minha mão se arrepiou com o pólen das sementes. As batatas nas mãos dos mineiros queimaram também as minhas e eu chorei de fome. Dancei sob o cipreste como uma anã desembaraçada. Corri para a igreja torta que vi debaixo d´água e me afoguei em orações de amor por ele. Chorei, cantei, e o esperei a noite inteira. Amanheci sob um céu lilás de aquarela se desmanchando. Ao lado do meu rosto um vaso de girassóis fazia cócegas nos meus olhos. Levantei e fugi pelo campo.

O mato cobria meus pés nas longas caminhadas, mais irritante que as pessoas curiosas me olhando. Eu era Vincent, mas não sabia pintar. Sabia ver o vestido surrado dos trabalhadores, comer pão duro de almoço, e lavar o carvão do rosto das crianças. Eu era uma pessoa qualquer, sem família, sem amantes. A arte escapava de minhas mãos e corria para a terra alaranjada, rodeada de pássaros e céu azul. O orvalho umedecia meu cabelo e meus braços magros. No caminho encontrei seu material de pintura esparramado pelo chão. Na tela, a postos, nenhum esboço para me adiantar qual seria o próximo trabalho. Olhei ao redor procurando-o. Estava lá, imóvel. Olhando a grande rodovia da cidade. Chameio-o, mas o barulho dos carros camuflou minha voz. Temi que a sua ingenuidade o levasse a correr para o outro lado. Não se moveu. Seu olhar preso na figura imensa de uma mulher num outdoor de publicidade. A cabeça extrapolava o retângulo da enorme tela. De repente vi seus lábios se movendo, mas o som que se ouviu saiu de minha garganta:

-Vincent, Vincent.

Tentem me aproximar. Inútil. Quanto mais eu me aproximava, mais ele se tornava distante. Voltou-se finalmente. Veio em minha direção. O rosto sujo de tinta e uma tristeza profunda no olhar. Perdi a fala, pronta para responder chorando em seus braços. Ouvi passos atrás de mim. Era ele, caminhando ao longo do rio. Ia e voltava, como um doido, com a cabeça entre as mãos. Implorei:

-Vincent, Vincent.

Não se alterou, de mãos no bolso, olhando o infinito. Uma garça voou sobre ele. Senti de longe que sorria para o pássaro. Mais tranquila me aproximei. Não permiti que fugisse novamente. Toquei suas mãos e o dourado do sol me invadiu. Gotas de chuva azul caíram sobre nós. Acomodei meu rosto num abraço denso que cobriu de lilás meus cabelos molhados. Ele não resistiu. Acolheu-me em paz.

Um forte cheiro de flor explodiu do nada e uma borboleta pousou sobre sua mão.

Desapareceram de mim, subitamente. Um ruído delicado me sobressaltou. Sua tela voava do cavalete em direção ao rio. Consegui detê-la. Ao me inclinar para virá-la, um pincel rolou do meu vestido para a água manchando-a com cores vivas. Ajeitei a tela no cavalete e percebi minhas mãos sujas de tinta. Do fundo lilás o retrato de Van Gogh me sorriu. No bolso de sua camisa um minúsculo girassol beijou com brilho o sol. Dentro dele, em letra tímida, meu nome.

Medida Certa

Nélia Banks

A fama corria solta pelas redondezas da Fazenda Ponta Grossa. Bolo de chocolate como o da velha Anastácia não havia igual. Seu segredo vinha de longe. Aprendera com a mãe africana, alforriada graças aos seus dotes culinários. Completamente à vontade numa cozinha, era verdadeiramente eclética na sua arte. Uma pitada da cozinha africana num prato português ou italiano fazia milagres. Aquela pimentinha no molho da macarronada levava seu Giovanni ao delírio. Pode-se dizer sem risco de exagero que era uma superdotada nas alquimias da cozinha.

Anastácia crescera à volta da saia da mãe, enredando-se em suas pernas, levando safanões para não importunar, mas absorvendo o cheiro e o gosto pelas iguarias que naquela ampla cozinha surgiam daquelas milagrosas mãos.

Cedo aprendeu Anastácia a distinguir o cominho do açafrão, o coentro da salsinha e a manusear a faca com destreza, para reduzi-los a minúsculos pedaços que seriam pulverizados sobre os quitutes.

Quando mais crescida, a mãe foi introduzindo-a nas artes culinárias e passando-lhe oralmente e na prática todos os segredos e paixões adquiridos ao longo da vida.

Tornou-se, Anastácia, cozinheira de mão cheia, reconhecida e muito cobiçada por todos os frequentadores das mesas da família Poci.

Sempre com os cabelos escondidos sob um lencinho de chita, podia ser encontrada a qualquer hora na “sua” cozinha, conservada impecavelmente limpa, e sua cúmplice nos segredos que guardava com orgulho e zelo.

Dava gosto participar das refeições da Fazenda Ponta Grossa. Eram sempre fartas e variadas, regadas a bom vinho italiano, cuja importação o patriarca não dispensava. Talvez o seu paladar o ajudasse a se manter ligado à terra mãe.

Os filhos menores não podiam provar do delicioso licor que descansava rubro e tentador nos copos dos adultos a cada refeição.

Quando pequena, Anastácia foi companheira de estrepolias das crianças da casa, explorando a fazenda, que era toda delas. Participou do assalto inicial e de todos os que se sucederam aos barris de vinho.

Descobriram, os pequenos, que o barril possuía uma rolha que, com algum esforço, podia ser extraída. Nas matas ao redor, havia uma planta que lhes fornecia um excelente canudinho, utilíssimo na degustação do precioso e proibido conteúdo do barril. Saboreavam o que lhes era vedado à mesa e, ao recolocar a rolha, tudo ficava em inviolável segredo.

Aquele vinho era não só belo quanto delicioso!

Com o tempo, porém, o velho italiano começou a se desgostar, pois a sua querida terra estava lhe fornecendo vinho ruim. Como podia um vinho azedar em tão pouco tempo, hermeticamente fechado como vinha? Só mesmo se já viesse azedo da origem – comentava à mesa.

Os pequenos trocavam olhares de cumplicidade mas não arriscavam o menor sorriso. As gargalhadas ficavam pra depois, quando estivessem a sós, longe do mundo dos adultos.

O tempo foi passando, o velho morreu, as crianças cresceram, as gerações se sucederam. Aos poucos tudo foi mudando, muitos se transferiram para a cidade e a fazenda Ponta Grossa se esvaziou.

Só, a agora velha Anastácia permaneceu como um baluarte, atraindo o pessoal, reunindo-os sempre que possível à volta da mesa. Seus quitutes continuavam tão bons quanto antes, o seu bolo de chocolate, com leve sabor alcoólico, continuava o carro-chefe da sua fama.

Porém, já mostrava os sinais do tempo, estava velha e cansada. Sem herdeiros, não passara seus segredos culinários a ninguém.

Ao vê-la com poucas forças e prevendo o desfecho que inevitavelmente tudo tem, uma neta do velho Giovanni resolveu interpelá-la, para aprender um pouco sobre aqueles toques mágicos tão apreciados.

A primeira guloseima na qual pensou foi o bolo de chocolate.

‘Então, Nastácia, você vai ou não vai me contar o segredo do bolo de chocolate? O segredo é o vinho, não é? Qual é o vinho e quanto você põe em cada receita, Nastácia?”

Anastácia pensou um pouco, hesitou – divulgava ou não a sua receita tão protegida? Oh, como era difícil, era como arrancar parte de sua alma! – mas num relampejo de consciência e num ímpeto de desprendimento, prevendo seu futuro, resolveu contar àquela menina, que lhe lembrava uma outra, de sua infância, todos os seus segredos. Talvez não vivesse muito mais para se orgulhar deles.

“Vai, Nastácia, conta como você consegue aquela delícia!”

“Ah, menina! Não é difícil, não. Tem que ser um vinho bom como o do seu avô, mas não gasta muito. Em cada receita eu ponho só uma bochechada…”.

La Danaide

Àquela que da pedra tirou movimento…

Elionice Lopes Borella

Jean saiu, deixando a pedra sobre a mesa. Um vento frio entrou pela porta que Jean esqueceu entreaberta, fazendo Rodin levantar a contragosto. Lá fora a noite fria pareceu a Rodin a noite mais escura que os seus olhos já tinham visto. Ficou parado na porta por um instante, experimentando o ar frio ganhando espaço no labirinto esponjoso e morno dos seus pulmões. Estava indisposto, com gripe, e isso tornava os seus pulmões estranhamente presentes…Trancou a porta e sentou-se diante da pedra inerte, com a sensação incômoda de que alguma coisa fora, da noite, havia entrado e se instalado pelos quatro cantos da sala. Levantou, caminhou em torno da mesa, alisou o mármore branco, impenetrável…Sua mão sobre a pedra pesava. Seu corpo todo pesava…não havia como começar nada naquela noite. Atirou-se vencido na cama e adormeceu.

Seus pulmões estavam estranhamente presentes. Dormia, mas o seu corpo todo estava acordado; cada poro, cada pelo, totalmente escancarados! Era horrível e fascinante a um só tempo! Sentia o suor gelado fazendo caminhos sobre a sua pele sem defesas. De repente a coisa começou! Era um pesadelo! Todo o seu corpo espumava em uma enorme massa de bolo fermentado. E crescia e palpitava…Agora já não era mais o seu corpo. Era a pedra na sala. Era o bolo de mármore sobre a mesa. A lisura da pedra começou a ruir, criando uma porosidade assustadora. Aquela coisa disforme estava viva! Tinha pele, tinha poros ia explodir!!!

Rodin saltou da cama como se tivesse sido lançado das profundezas de um vulcão! Lavou o rosto, mas não conseguiu se livrar daquela porosidade corrosiva. Alguma coisa o chamava para a sala, alguma coisa o mantinha imóvel! Da sala vinha aquele ar frio que sempre o incomodou nas peças de mármore. Da sala também irradiava uma brancura apaziguadora…Deu o primeiro passo. Precisava ir até a sala e conferir a pedra impenetrável, silenciosa…Mas, quanto mais se aproximava, mais o frio tomava conta do seu corpo. Lembrou do cinzel. Correu para a sala em desespero, mas quando conseguiu alcançá-lo, seu corpo já estava tomado pela convulsão, seus dedos contorciam-se em torno do cinzel que afundava mais e mais em sua carne até se integrar definitivamente à sua mão. Não podia mais soltá-lo, não podia mais fugir! Cara a cara com a pedra só restava apunhalar sua brancura sem saída. Uma pedra é sempre algo sem saída…E a noite pôde então ouvir um gripo assustador: – Não é por ai que você tem que entrar!!!

Exausto, vencido, sem ter como sair, sem ter como entrar, percebeu que era hora de ajoelhar: – “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva!” E a palavra veio não se sabe de onde: Danaide! Danaide!

Rodin sentou-se diante da mesa, cinzel na mão, e assistiu silencioso ao milagre. Nunca entendeu como aquilo começou, mas, do buraco que havia escavado na pedra, alguma coisa foi se criando a si mesma. Quando se deu conta do que estava vendo, a mão branca e delicada retirava do buraco a ponta dos seus próprios dedos. A coisa saiu da própria coisa, como a água chove da água!

Rodin passeava os olhos cansados por aquele dorso bem torneado que descia liso e branco até a nuca misteriosa. Não podia ver-lhe o rosto que adivinhava lindo, pois a mulher estava debruçada sobre sua própria origem a tirar-lhe indefinidamente de si mesma…Nunca entendeu como aquilo começou, nunca entendia…era sempre assim, mas dessa vez observou que, entre a irregularidade da pedra e a pele lisa e fina da bela mulher, havia os seus cabelos desalinhados, um tanto além, um tanto aquém da criação. E como percebeu também que a bela criatura estava impossibilitada de se dar um nome, pois estava eternamente em reverência à sua própria matéria branca e gélida, Rodin batizou-lhe de Danaide, assinou sua obra e saiu para ver o dia que estava amanhecendo.

O Muro

Arary Oliveira Lima

Obra de mestre em alvenaria, o muro é parente dela, mas não é parede, é bem diferente. Não faz parte da casa. Fica de fora, de longe, como um parente distante da parede que não tem coragem de chegar perto e ser mal recebido.

Também, pudera, ele sabe que a parede significa mais para a família. A parede é proteção da intempérie, é aconchego, é abrigo, é calor, é felicidade, é lar.

Mas o muro representa divisão. Divide a gente do mundo, separa do melhor vizinho, não alimenta amizade.

É verdade que protege, mas a distância, sem intimidade.

Eu, por mim, prefiro ver o verde ao redor da casa.

Ainda agora fizeram um muro na minha rua. Bem aqui em frente.

Eu passava as tardes vendo a algazarra da criançada do outro lado, brincando no escorregador. Elas faziam cada uma! Tem moleque que é danado mesmo. Cada descida numa nova posição. Às vezes, alguns se davam mal e se ralavam. Eu ria das traquinagens.

E o balanço então. Era grito das meninas que não acabava mais.

Eu gostava mesmo quando era tempo de alguma fruta. Goiaba, Jabuticaba, Caqui. A meninada trepava nas árvores e comia quilos de frutas.

Lembrava do meu tempo…Mas isso é outra história.

Eu estava distraído olhando as flores do jardim do outro lado. Eu chegava a atravessar a rua para ver as rosas mais de perto. Quantas cores! Dava até para sentir o perfume!

É, eu estava distraído e chegou o caminhão.

Despejou tijolos, areias e britas…

Logo depois chegou o operário com a ferramenta na mão. Foi fazendo a vala para o alicerce e, num piscar de olhos, começou a levantar aquele muro. Parece o muro de Berlim, que graças a Deus caiu!

Na tarde do outro dia eu já não via o jardim.

Depois sumiu o playground.

As árvores floridas foram desaparecendo como se fossem varridas por um furacão.

Toda aquela beleza sumiu da minha frente.

Agora, do outro lado desta rua em que eu moro, só vejo na minha frente esse pedaço de muro.

Por mal dos pecados, além de tudo, depois que pintaram o muro, vieram uns marmanjos de noite e picharam tudo com um mau gosto terrível.

Há vida do outro lado. Eu sei, eu ouço, eu sinto e não vejo!

Um dia desses eu levo uma escada e encosto de encontro ao muro.

Vou subindo bem devagar.

Então, vou ficar espionando a felicidade alheia.