Homem sem Rosto

Maria Márcia Garrote

Os duzentos metros quadrados de área, o enorme pé direito, o concreto e a nudez daquele saguão transportavam os mais atentos aos misteriosos salões de grandes cavernas. Apenas o relógio na parede e o movimento de pessoas fantasiadas de escritório mostravam que aquele ambiente frio não havia sido criado pela natureza.

O fluxo intermitente de pessoas aumentava e diminuía e o toc-toc dos passos era sempre engolido por largos corredores que ligavam as diversas alas.

Embaixo do relógio, uma única mesa com uma farda, o homem fazia parte do cenário. E esse homem, o da farda, observava tudo e todos, discretamente, afinal para isso havia sido treinado. Mas o que esse homem mais observava e pelo que ele ansiava todos os dias era a chegada da moça bonita, de longos cabelos sempre alados por cintilantes presilhas.

Dia após dia, anos a fio, dez na verdade, ele sempre sabia o tempo certo que a conhecia. Dez anos que a esperava, vê-la passar, contar seus passos, era seu diário objetivo maior.

Na verdade, para os que passam e repassam não existe o homem, o que existe é uma farda atrás de uma mesa, abaixo do relógio do saguão. Poucos, quase ninguém percebe o recheio da farda, muito menos ela, a moça das presilhas cintilantes.

Ela passava com seus papéis na mão, com seu pensamento já no ato seguinte, desdenhando o momento presente, aquele em que passava pela mesa com a farda atrás. Ela sabia que existia um homem da mesma forma que existia uma mesa, mas nunca lhe dirigiu um olhar, afinal, objetos comuns não são reparados.

Mas ele sim a conhecia, conhecia todas as suas expressões, sabia quantos passos usaria para atravessar seu saguão antes de desaparecer no corredor. Ele estava ali para guardar, proteger, observar, dar a vida, se preciso fosse, para salvar cada um daqueles funcionários que passavam dezenas de vezes por dia sem o ver. Para todos era um homem sem rosto, mas no rosto invisível os sentidos exerciam suas funções, discretamente, sem despertar a atenção. Afinal, a sutileza de seus sentidos era própria dos figurantes. Ele era como um pequeno parafuso que é importante para o equilíbrio da engrenagem, mas não é notado.

E assim seus sentidos discretos, que não provocavam um só movimento de seu corpo, acompanhavam cada trajeto de sua musa. Seus olhos a seguiam desde a entrada do saguão até que desaparecesse pelo corredor. Seus ouvidos eram acionados pelo farfalhar dos papéis nas mãos de sua princesa, bem antes de seu delicado vulto ser desenhado na entrada. E o toc-toc de seus altos saltos era música inconfundível para aquele rosto sem traços. A fragrância ficava e, durante alguns minutos depois de sua passagem, a farda ficava realmente vazia, pois o homem se elevava para um estágio muito distante daquele saguão, tragando cada partícula de seu perfume até esgotá-lo, como para impedir que alguém mais usufruísse daquele aroma. E aí lá do alto ele imaginava que ela gostava de vê-lo e sentir sua presença.

Depois, voltava para sua farda e começava a perceber novamente cada um dos transeuntes, alguns dos quais ele invejava pois vez por outra os via passando com sua musa, rindo e tagarelando, tocando-a levemente como se tocam as pessoas quando se conta um caso. Com isso, o homem sem rosto percebia sua realidade. Ele era o dono da moça de presilhas cintilantes, conhecia seu cheiro, seus ruídos, seu andar, até seu respirar, mas não podia tocá-la. E embora conhecesse sua voz melhor que ninguém, não podia participar daquelas conversas de passagem. Ouvia palavras soltas que, antes de formar um sentido, desapareciam no nada levando consigo aquela sublime imagem e seu séquito de privilegiados.

Para ele era apenas permitido sonhar. Sonhar em tocá-la, olhá-la por longo tempo, sonhar que ela lhe notara.

Mas o implacável ponteiro do relógio havia chegado a sua posição mais vertical, a posição odiada, seis da tarde. Dentro de alguns segundos, a paz do saguão seria acabada como se um turbilhão de robôs tivesse sido ligado.

Certamente a hora muito esperada por todos, o final de um dia de trabalho, os encontros, a família, o descanso. O nosso herói, ao contrário, tentava espichar o dia, nem olhava o relógio para se iludir que ainda havia muito dia pela frente e muitas visões de sua amada.

Mas agora o ponteiro em riste era soberano, seu turno estava acabado. Restava apenas ir até a rua e seguir sua paixão, discreto e atento como era treinado. Mesmo na rua não conseguia uma identidade, era mais um, o que o diferenciava era o brilho no olhar a seguir sua musa adorada. E assim ia até que ela estivesse na segurança do seu carro.

Parado na esquina, ele a viu se aproximar com seu jeito manso, o suave andar. Passou tão próximo dele que chegou a sentir seu calor.

E se foi…

Mas o que é isso? Um sujeito parece que a está seguindo. Pode estar armado, pode assaltá-la!

E sua paixão o impulsionou. Deu alguns passos de gigante, alcançou-a e a protegeu com seus fortes braços enlaçando-a.

Enquanto o vulto suspeito passava sem sequer perceber a situação, a doce musa gritava, gritava pela polícia, por socorro.

Ele a fitou incrédulo. Seu coração não podia aceitar. Sou eu, não está vendo?

Enquanto o espanto e a indignação se apoderavam dele, a polícia chegou e o levou.

Ela, assustada, seguiu seu caminho, certamente louca para chegar em casa e contar que havia sido atacada por um desconhecido.

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