Engenho Sertanejo

Mauro Bigarella

Na tarde ensolarada do baixão o ranger das moendas do engenho do Amaro vira cantiga de ninar que embala o dia, para ele se pôr com mais sossego. Zoadeira de carro de boi, de roda de caititu, de engenho de cana, é sinal de fartura, de povo que se junta.

Tempo de moer cana não tem defeito: é mel, é puxa, rapadura, tijolo. É cachaça…Muitos vizinhos estão envolvidos. As mulheres limpam o que é preciso limpar e os homens pegam a examinar tudo. Afinal, tem para todos, até com sobras.

O engenho está colocado perto do riacho, junto ao pé de mirindiba. A casa do engenho é uma palhoça grande, redonda. No meio as três moendas de jatobá antigo, puxadas por um par de bois amarrados na manjarra. Somos umas quinze pessoas. Tem quem admire o feitio do engenho e quem admire a energia do boi que consegue puxá-lo. Qualquer coisa é motivo de exclamação! As forças da natureza ou a inteligência do homem capaz de inventar máquinas, tudo cai no comentário.

O engenho é de pau, tem peças mais moles para não gastar as moendas de jatobá lavradas num torno rudimentar. Não tem um prego ou um parafuso sequer. Engenho do sertão é uma obra de arte. O rangido dos dentes, o estralar da cana sendo triturada, o espumante caldo alvinho escorregando na madeira vermelha, enchendo cuias e tachos, compõe a alegria do pobre que sabe aproveitar o possível da vida. É um ritual secular, cujo início se perde na história. Parece repetir as regras do vagaroso desenrolar das existências sertanejas. Não se força a madeira, não se força o tempo. Tudo no compasso certo, cumprindo a sorte dos ancestrais.

Engenho já foi lugar de cativeiro e dor, mas esse tempo só ficou para os mais antigos, que nas rodas noturnas relembram os causos dos negros escravos. A vida é dura hoje também. Muita vez é moída como a cana, mas a rapadura e a pinga ajudam a compensar o suor. Uma ou outra, na justa hora, animam os dias, adoçam o café, dão sustança à farinha e força ao homem no trabalho da roça.

Foi muita atenção do seu Amaro ter botado a cana n’água bem cedo. Noite cheia, tomamos a garapa fria na cozinha. O engenho favorece a comunhão dos sertanejos e provoca conversas, gritos, risos à luz da lamparina. Comunidade.

*Imagem pertencente ao acervo da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto

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